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QUILOMBOPOD! 

Oficinas de podcast no Quilombo do N'Gunga

O projeto QuilomboPODE! – Oficinas de Podcast no Quilombo do N’Gunga, realizado por meio do Termo nº 19880/2024 e contemplado pelo Edital 05/2024 – Chamamento Público Capacitações da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB-MG), apresenta o resultado de um processo coletivo de formação, escuta e produção de narrativas sonoras construído junto à comunidade.

Ao longo das oficinas, moradoras e moradores de diferentes gerações se reuniram para compartilhar memórias, histórias, saberes e experiências que fazem parte da trajetória do Quilombo do N’Gunga. A partir dessas conversas, foi produzido um podcast que registra e valoriza os conhecimentos transmitidos entre gerações, fortalecendo a preservação da memória e do patrimônio cultural da comunidade.

Os episódios percorrem temas como os saberes de cura e os benzimentos, as rezas para as almas, as lembranças da infância, os modos de cultivo e alimentação, as práticas de pescaria, as quitandas tradicionais e as histórias de pessoas que marcaram a vida coletiva do território. São relatos que revelam formas de viver, resistir e construir pertencimento, transmitidas por meio da oralidade e da convivência comunitária.

Mais do que um produto final, o podcast é resultado de um processo de formação que buscou ampliar o acesso às ferramentas de comunicação, estimular a produção de conteúdo pela própria comunidade e fortalecer o protagonismo quilombola na construção e difusão de suas narrativas.

Por meio das vozes de seus moradores, o Quilombo do N’Gunga compartilha com o público histórias que atravessam o tempo e reafirmam a importância da memória, da ancestralidade e da cultura como elementos fundamentais para a continuidade da vida comunitária.

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Sobre o podcast QUILOMBOPOD – QUILOMBO DO N’GUNGA

Este episódio nasce de encontros, conversas e escutas compartilhadas com moradoras e moradores do Quilombo do N’Gunga, em Piedade do Paraopeba, Brumadinho (MG), reunindo diferentes gerações para contar histórias, memórias e saberes que atravessam o território.

No primeiro momento, uma conversa coletiva recupera lembranças da infância, dos quintais, das plantações, da criação de animais, das pescarias, das quitandas, dos modos de produzir alimentos e dos conhecimentos ligados às plantas medicinais, aos benzimentos, às rezas para as almas e à presença dos ancestrais. Em seguida, Ana Beatriz de Amorim conversa com sua avó, Maria do Rosário, sobre a infância em Piedade do Paraopeba, a escola, o trabalho na roça e a Festa de Nossa Senhora do Rosário. Por fim, acompanhamos uma experiência sonora sobre a feitura do cubu, desde a busca da lenha até o preparo e o momento de assar, entrelaçada às memórias de trabalho, aprendizado, acolhimento e transmissão de saberes entre gerações.

 

Mais do que registrar lembranças, este episódio cria um espaço de partilha, memória e continuidade, construído a partir das vozes, experiências e afetos da comunidade.

 

Este podcast é fruto do projeto cultural QuilomboPODE! – Oficinas de Podcast no Quilombo do N’Gunga, realizado por meio do Termo nº 19880/2024, contemplado pelo Edital nº 05/2024 da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura em Minas Gerais.

 

FICHA TÉCNICA
 

Realização: Coletivo MICA – Mídia, Identidade, Cultura e Arte
Coordenação geral: Raquel Salazar
Coordenação pedagógica: Arthur Medrado
Produção executiva: Thamira Bastos
Produção: Jôrdania Marçal
Mediação das oficinas: Jôrdania Marçal, Quel Satto e Fredda Amorim
Mobilização local: Ricardo Nery
Edição e tratamento de áudio: Thamira Bastos e Arthur Medrado
Transporte: Exploradores de Minas Turismo e Receptivo
Alimentação: Adilson José Maia e Reginaldo Casimiro
Assessoria jurídica: Diana Gebrim
Assessoria financeira: Contacto Assessoria Empresarial Ltda.
Design: André Nascimento
Criação e design do site: André Nascimento
Acessibilidade: Daiane Prudencini e Líviny Marques

 

PARTICIPANTES DAS OFICINAS E DO PODCAST

Adilson Maia, Ana Beatriz de Amorim, Ana Carolina Melo, Ana Júlia Fernandes, Ana Maria Maia, Angela Benevides, Edson Maia, Elisangela Coimbra, Emanuelly Victória, Edmilson Maia, Glaucia Fernandes, Glória Fernandes, Iná Maia, Kaique Siqueira, Maria do Rosário, Maria José Coimbra, Maria Márcia da Silva, Mônica Oliveira, Nilce Coimbra, Rafael Fernandes, Ricardo Nery, Rosa Helena Nery, Sônia Terezinha, Tania Silva e Tania Terezinha.

 

Ouça a podcast

Assista a versão com libras

Leia a transcrição

QUILOMBOPOD — QUILOMBO DO N’GUNGA Esta transcrição foi organizada em três momentos, quais sejam: MOMENTO 1 — RODA DE CONVERSA COM A COMUNIDADE MOMENTO 2 — BEATRIZ ENTREVISTA A AVÓ MOMENTO 3 — MEMÓRIAS E FEITURA DO CUBU APRESENTAÇÃO DO EPISÓDIO [00:00–01:00] Apresentação: Bem-vindos, bem-vindas e bem-vindes a este podcast. Este episódio nasce de encontros, conversas e escutas compartilhadas com moradoras e moradores do Quilombo do N'Gunga, reunindo diferentes gerações para contar histórias, memórias e saberes que atravessam o território e a vida da comunidade. Apresentação: Ao longo desta conversa, você vai ouvir lembranças sobre a infância e os modos de viver de outros tempos; histórias sobre cultivo, alimentação, quitandas, pescarias e o território; além de narrativas sobre saberes de cura, benzimentos, rezas para as almas e memórias deixadas por mães, avós e ancestrais, que seguem presentes na construção da comunidade. Apresentação: Este podcast é um espaço de partilha, memória e continuidade, construído coletivamente a partir das vozes, experiências e afetos do Quilombo do N'Gunga. MOMENTO 1 — RODA DE CONVERSA COM A COMUNIDADE 1. Saberes de cura, chás e benzimentos [01:00–06:53] Participante: Quando o bebê nasceu, no hospital fizeram um exame e ela ainda estava amarela, com icterícia. Minha avó falou: “Pode falar para dar alta, para ela vir para casa, porque eu já sei o que fazer”. Conversei com o médico, e ele disse que daria alta, mas que, em dois dias, eu precisaria voltar para acompanhar a bebê. Participante: Minha vó disse que quando chegasse lá resolveria. Nós viemos embora. Minha avó deu três banhos de chá de picão e colocou também um pouquinho do chá na boca dela. Eu dizia: “Vó, criança recém-nascida não pode tomar chá, é só leite”. Ela respondia: “Não preocupa, não”. Ela deu banho, deu um pouquinho de chá, três banhos e três punhados na boca. Quando voltamos ao médico, ela já não tinha nada. Entrevistador(a): Como era a produção dos remédios e dos chás com as folhas medicinais? Quem fazia esses preparos? Participantes: Minha mãe, tia Bela, que era a raizeira. Entrevistador(a): E quais eram as folhas medicinais? Participantes: Para cada dor, ela tinha um chá: chá de picão, chá de São Caetano, erva cidreira, folha de algodão, capeba… Entrevistador(a): E fazia o que com a capeba? Participantes: Fazia o chá…Essa planta era usada tanto para banho quanto para tomar. Ela é anti-inflamatória. Ah, mas você lembra, tinha uma farmácia… eu fui lá comprar remédio. Ele embrulhou o remédio e me deu assim: quando eu fui subir a escada o remédio caiu lá e quebrou. Aí eu vim e falei: "Ô mãe, aqui, o remédio caiu quebrou. Volta lá. Vai pedir ele fazer outro! Ô gente, mas quase que ele me bateu. Participantes: Naquele tempo era difícil conseguir as coisas. Entrevistador(a): E tinha benzedeiras aqui? Participantes: Aqui tinha, era a Vó Bela. Ela era parteira e benzedeira. Mamãe, ela morreu, e ninguém aprendeu a receita de um xarope que ela fazia, que chegou a tirar um menino do hospital. Ninguém aprendeu… Participantes: E o benzimento de vento caído que ela benzia na porta? Participantes: Levava o menino até a porta e voltava três vezes, rezando. Depois segurava a criança pelas pernas, com a cabeça virada para baixo, e sacudia. E pronto! A avó também cosia? Cosia! Alguém lembra o que respondia? Carne quebrada, osso desconjuntado, nervo embolado…osso partido, aqui mesmo eu coso. Aí ela enfiava a agulha três vezes na bolinha de pano. Mas até que tinha muita gente que benzia, agora que acabou. O vô era também benzido de cobra, não era? Era! E quando ele encontrava uma cobra, como era? Participantes: Eu me lembro de uma vez em que fomos apanhar lenha, e vimos uma cobra. Voltamos para chamar papai. Ele disse: “Não faz nada, não”. E era uma cascavel, ele foi lá…com um pouco a cascavel estava lá enroladinha, ele já tinha matado. Participantes: Benzer a gente não sabe muito benzer não. Não lembramos não. Quando meus filhos eram pequenos, eu benzia. Hoje não lembro mais tudo. Benzia de quebrante, mal olhado. De sapinho também, vocês lembram que mamãe benzia com porca e porco? Era no próprio cocho, enquanto eles comiam. Mas tinha que ser a madrinha de batismo da criança, era bater e valer. Qual outra benzeção dela que a gente lembra? Ah… benzia de quebrante, de dor de cabeça de sol… Entrevistador(a): Como era o benzimento para cabeça de sol? Participante: Colocava um pano branco na cabeça e uma garrafa branca, aberta e cheia de água. A garrafa ficava virada, mas a água não entornava. Era feito quando o sol estava bem quente. A água parecia ferver e fazia até barulho. Parecia um ebulidor. Depois, a pessoa melhorava. Entrevistador(a): E o que faziam para as crianças aprenderem a falar? Participante: Aí já era simpatia. Usavam água de chuva da campainha, água da primeira chuva de janeiro na colher de ferro. Também davam água na casca do primeiro ovo que a galinha punha. Se tivesse um pintinho colocava ele na boca. Tinha também uma sementinha de estourar, mas depois também o menino começava a falar a gente até arrependia (risadas). 2. Criação, quintal, frutas e produção de sabão [06:53–13:15] Entrevistador(a): O que vocês criavam aqui no quintal? Participantes: Criavam galinhas, patos e porcos. Havia também um poço de pato. Tinha também uma mangueira bem no meio de chiqueiro, a gente ficava lá esperando a manga cair para pegar antes do porco. Os porcos acabaram, o pé de manga continua. Nós também estamos aqui, como o pé de manga, resistindo. Entrevistador(a): Então aqui tinha até um poço de pato? Isso eu nunca tinha ouvido…Para o que que se cria o pato? Participantes: O pato era criado para comer, também tem o ovo, se comparado com o de galinha ele é mais forte. É também remédio. E para comer, muitas vezes com arroz, pato é uma carne fresca. E eles falavam também que, na hora de depenar e limpar, a gente não podia brigar, quando mais a gente brigava mais pena dava. Participantes: Aqui também havia produção de sabão. A gente buscava coco lá do outro lado, e colocava no poço. Estou lembrando, não sei se foi Nilo, se foi Gerson, nós fomos tirar coco no poço, aí ele jogou uma minhoca em mim, chorei o dia inteiro, não comi, não bebi, trabalhei sem comer, chorando, chorando por causa de minhoca que jogou em mim. Nossa e a gente morria de medo de minhoca né? Participantes: Mas o poço do coco era ali, naquela parte onde é a estrada hoje né? É. Mas aqui dentro tinha um também. É porque aqui, antigamente, não tinha a estrada, então nosso quintal ia até lá. A horta era lá, tinha muita coisa lá onde é a estrada. Participante: E quais os pés de manga tinha ali? Participantes: Manga-rosa, manga coração-de-boi, uma manga grande e muito gostosa. Lá perto do casarão que o vô trabalhava tinha fruta-pão, não é? Ainda tem. Tem fruta-pão e siriguela. Então tinha produção de muitas frutas né? Participante: E como que fazia o sabão mesmo? Fazia de coada de cinzas e fazia do coco fermentado. O coco a gente colocava no poço, cobria com capim meloso. Às vezes colocava terra também. Depois de alguns dias a gente retirava, cascava ele e socava no pilão, com água quente. Fazia sabão preto e sabão branco. Participante: Esse líquido ia ao fogo e era misturado à gordura para fazer o sabão. Também se usava gordura e osso de boi. Depois que a carne era comida, separava-se a gordura. Os ossos ficavam guardados no paiol, junto com o milho, até o momento de usar. Participantes: Havia manga-rosa, manga coração-de-boi, uma manga grande e muito gostosa, fruta-pão, siriguela, laranja-da-terra, laranja campista, pitanga e outras frutas. Entrevistador(a): E os pés de jabuticaba? Era um pé para cada filho? Participante: Era um pé para cada família. A árvore representava a família. Cada pé era respeitado: o de tia Bela pertencia à família dela; o de Luzinha, à família dela; o de Maria Gomes, à família dela. Ninguém mexia no pé da outra família. 3. Lenha, criação de porcos, colheita e quitandas [13:15–16:22] Entrevistador(a): Essa lenha era usada para consumo e também para venda. O que se fazia com ela? Participante: Essa é uma das melhores partes do nosso passado. Plantava-se a roça, engordava-se o porco e, quando o porco era abatido, usava-se a lenha. Era dia de festa neste quintal. Participante: A família toda se reunia. A gente ia fritando, fazendo comida e comendo à vontade. No dia seguinte, quase não se encontrava mais nada, porque cada pessoa também levava um pedaço. Os vizinhos que juntavam a lavagem para alimentar os porcos ganhavam carne. Participante: Também se fazia chouriço, mingau e angu. Quando a colheita do milho chegava no carro de boi, a gente ajudava a descarregar, carregava em balaio e levava para o paiol. Era outra festa. Este quintal já foi muito produtivo. Entrevistador(a): E as quitandas? Participantes: Havia um forno aqui ao lado. Mamãe assava porco, pernil, leitão e galinha. As encomendas eram entregues em tabuleiros cobertos com folha de bananeira, porque não havia papel-alumínio. Entrevistador(a): Quando chegava uma visita, para quem ia o melhor pedaço? Participantes: Para a visita. Para a gente, muitas vezes, ficavam o pé e o pescoço, usados para fazer caldo. 4. Pescarias e o território [16:22–18:02] Entrevistador(a): Havia lugares para pescar por aqui? Participante: Antigamente as pessoas pescavam muito nas lagoas e nas grotas. Alguns não gostavam de pescar com vara. Faziam um cordão de minhocas, passando a linha por dentro delas, e usavam para pegar bagre. Participante: Mexia-se a água e esperava um pouco. Depois colocava-se o cordão de minhocas na água. Quando o bagre agarrava, era preciso levantar rápido e colocar uma peneira ou um balaio por baixo. O peixe era guardado numa capanga, que era como um embornal. Entrevistador(a): Onde isso acontecia? Participante: No pé da serra, perto da grota do Algodão, próximo das roças e dos lugares de cultivo. 5. Rezas para as almas e ancestralidade [18:02–23:52] Participante: Eu peço para as almas me acordarem na hora certa. Até hoje faço isso. Digo: “Cinco horas, me acorda”, e elas me acordam. Quando saio e não há ninguém em casa, quem toma conta da minha casa são as almas. Participante: Uma vez, eu precisava acordar e senti uma mão me chamando. Eu disse: “Pode me chamar, mas não coloca a mão, não, porque eu tenho medo”. Entrevistador(a): Existe uma reza específica para as almas? Participantes: Pode ser um Pai-Nosso, dizendo que é para as almas. A gente reza à noite e dorme com tranquilidade. Quando não reza, às vezes não consegue dormir. Também se pede ajuda para acordar na hora certa. Participante: Quando uma alma não deixa a pessoa dormir, pode ser que esteja precisando de uma missa. Quando sonhamos com alguém que morreu há muito tempo, e essa pessoa talvez não receba missa há muito tempo, mandamos celebrar uma missa pela alma dela. Participante: Na missa existe um momento específico para essa entrega. A tradição do N'Gunga se sincretizou dentro da Igreja Católica. Nós não somos de terreiro de Umbanda ou de Candomblé; temos a tradição do Reinado, ligada à nossa tradição africana de rezar e invocar os espíritos dos ancestrais. Antigamente também se rezava às segundas-feiras no cemitério. Participante: Na missa, quando o sacerdote fala por aqueles que adormeceram na esperança e na fé, é o momento de pedir o descanso eterno e fazer a entrega pelas almas. Participante: Minha avó também conversava com a mãe dela. Dizia: “Alma de mamãe” e falava da saudade. Essas memórias e conversas com quem já se foi continuavam presentes na família. CRÉDITOS E TRANSIÇÃO [23:52–24:44] Apresentação: Este podcast é fruto do projeto cultural QuilomboPODE!, oficinas de podcast no Quilombo do N'Gunga, realizado por meio do Termo nº 19880/2024, contemplado pelo Edital nº 05/2024 — Chamamento Público Capacitações da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura em Minas Gerais. Apresentação: Este é o primeiro de três momentos do podcast produzido ao longo das oficinas, reunindo histórias, memórias e saberes compartilhados pela comunidade do Quilombo do N'Gunga. Apresentação: A seguir, você vai ouvir uma conversa especial entre Beatriz e sua avó, em um encontro que revela afetos, lembranças e experiências transmitidas entre gerações. MOMENTO 2 — BEATRIZ ENTREVISTA A AVÓ [24:44–27:58] Beatriz: Boa tarde a todos. Estou aqui com a minha avó. Bença, vó. Avó: Deus abençoe. Beatriz: Nós vamos começar a nossa entrevista. Vó, há quanto tempo a senhora mora aqui em Piedade? Avó: Desde que nasci. Há 73 anos. Beatriz: Qual é o lugar de que a senhora mais gosta aqui em Piedade? Avó: Quando eu era criança, gostava da cachoeira. Agora, depois de adulta, gosto da minha casa. Beatriz: Quando a senhora era criança, do que gostava de brincar com as suas amigas? Avó: A gente brincava de jogar peteca, passar anel e pique. Beatriz: E a escola? Como era? Até que série a senhora estudou? Avó: A escola era boa. Eu estudei até a quarta série, porque não tinha mais. Quando a gente terminava a quarta série, ganhava o diploma. Avó: A gente chegava da escola e já ia para a roça: semeava adubo, plantava feijão e plantava milho. Beatriz: A senhora se lembra de como era a preparação da Festa do Rosário aqui em Piedade do Paraopeba? Avó: A gente ficava muito feliz na véspera da festa. Havia a novena de Nossa Senhora do Rosário, e a gente ia todos os dias. Ficava doida para chegar o dia da festa. Avó: No dia da festa, acompanhava o Reinado o dia inteirinho. Aonde o Reinado ia, a gente ia. Almoçava por lá e ficava por conta da festa desde a hora em que acordava até a noite, até o recolhimento. Avó: Havia umas varinhas da juíza para acompanhar na procissão. Eram enfeitadas como um mastro. Cada moça da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário tinha a sua varinha para ir atrás da santa. Beatriz: A senhora também fazia parte da Irmandade? Avó: Sim. Eu enfeitava a minha varinha para ficar bem alegre e bonita. Beatriz: Tem alguma história, alguma coisa que aconteceu e marcou a senhora, que gostaria de compartilhar? Avó: Aconteceram muitas coisas boas, mas agora eu não me lembro. Eu sei que era muito bom. Beatriz: Então está bem. Obrigada, vó, pela entrevista. MOMENTO 3 — MEMÓRIAS E FEITURA DO CUBU 1. Apresentação do terceiro momento [27:58–28:26] Apresentação: Agora, no terceiro e último momento, convidamos você a acompanhar uma contação de história sobre as memórias do Quilombo, percorrendo todo o processo da feitura do cubu: desde a caminhada para buscar a lenha até o preparo dessa tradição, passando também por uma receita especial compartilhada pela comunidade. 2. A busca da lenha [28:26–33:47] Participante 1: Ô Naná, vamos para lenha! Participante 2: Tia Lia, a mamãe já desceu e está esperando a senhora. Participante 3: Eu também vou. Estou descendo. Participante 1: Você vai, Tânia? Tania: Vou. Participante 1: Nilce, você vai? Nilce: Vou, já estou indo. Participante 2: Vou tirar um cipó enquanto vocês arrumam a lenha, porque está difícil achar cipó hoje. Participante 1: Cuidado com a lenha molhada e com a lenha podre. A gente não carrega lenha podre. Participante 1: Já rezou antes de entrar no mato? Faz em nome do Pai. Cuidado com cobra viu. Participante 1: Achou cipó?. Participante 2: Tá difícil achar esse cipó. Vou naquela árvore grande para ver se encontro. Participante 1: Tá difícil demais tirar lenha aqui. Pode trazer cipó-de-batata mesmo. Participante 1: Achei um cipó bom. Sons de cipós e lenhas sendo cortados. Participante: Meu feixe já está pronto. Botei uma árvore aqui para apoiar. Vou pegar mais lenha. Participante: Vamos pegar mais. Quer a foice emprestada? Sons de cipós e lenhas sendo cortados. Participante: Não achou cipó até agora Dilson? Pode jogar um para mim, para eu amarrar o meu feixe. Sons de cipós e lenhas sendo cortados. Participante: Antigamente, antes de entrar no mato, a gente rezava para São Bento… Agora falta só mais um cipó, me dá um pedaço aí Tânia? Participante: Já amarrei aqui, agora vou amarrar a foice… Sons de cipós e lenhas sendo cortados. Participante: Vou levar a lenha que mamãe vai fazer cubu hoje ainda. Participante: Cadê o cipó? O meu arrebentou. Participante: Ô Naná, o Dilson arrumou uma lenha boa aqui pro cê. Sons de cipós e lenhas sendo cortados. Participante: Eu já estou saindo do mato. Vou esperar vocês no muro de pedra. 3. Apresentação das participantes [33:47–34:42] Maria Lúcia: Nós estamos aqui em Piedade do Paraopeba, que pertence a Brumadinho, no Quilombo do N'Gunga. Naná: Meus pais são daqui, e eu também sou daqui, nascida e criada aqui, somos aqui do Quilombo.. Eu me chamo Ana Maria Maia, mas todo mundo me chama de Naná. Estamos aqui preparando um cubu para a comunidade. Maria Lúcia: Eu sou Maria Lúcia. Sou prima de Naná; nossas mães eram irmãs. Hoje vim ajudar a fazer o cubu e aprender. Sônia: Eu me chamo Sônia. Sou irmã da Naná e prima da Maria Lúcia. Viemos aprender a fazer o cubu com ela. 4. Ingredientes e preparo [34:42–38:57] Naná: Vamos fazer o cubu. Meninas, podem me entregar os ingredientes? Naná: Primeiro, o fubá. Depois, um pouco de farinha de trigo, açúcar, margarina, ovos, leite, fermento e um pouquinho de sal. Naná: Agora vou misturar tudo. Precisa de mais um pouquinho mais de leite. A gente vai olhando até chegar ao ponto. Naná: A massa chegou ao ponto. Agora precisamos do tabuleiro e das folhas. Participante: As folhas já foram lavadas? Naná: Já. Agora é preciso limpar bem com um pano, as folhas tem que estar secas. Naná: A gente coloca a massa sobre a folha e enrola. Maria Lúcia: Quantos minutos de forno? Naná: Eu não tenho base disso não, coloco no forno e vou olhando. Naná: Quando faço no forno elétrico, coloco a 300 graus. No forno a lenha, a gente observa a temperatura e vai colocando mais lenha. Naná: A parte mais clara da folha fica para dentro, encostada na massa. A parte escura fica para fora, e a folha tem que estar bem limpinha. Naná: Não pode abaixar demais a folha dentro do tabuleiro, senão ela esbarra na massa. Participante: O forno já está quente? Naná: Já. Agora vamos levar para assar. Participante: Mostra como ficou. Naná: Olha, gente: aqui é o cubu. 5. Memórias sobre o fubá, o coco e os quintais [38:57–43:41] Entrevistador(a): Antigamente, como vocês conseguiam o fubá? Naná: A gente plantava a roça e colhia o milho. Quando o milho chegava em casa, a gente descascava, debulhava, soprava e levava ao moinho. Naná: No moinho, pesavam o nosso milho e entregavam o peso em fubá. Em casa, a gente peneirava para fazer broa e cubu. Entrevistador(a): E qual era a medida dos ingredientes? Naná: Era tudo pelo olho, porque não havia medida. Colocava-se uma quantidade de fubá e bem pouca farinha de trigo, porque a gente comprava muito pouco. Às vezes, fazia sem farinha mesmo, só com o fubá. Naná: O fubá do moinho d’água dava liga. Não tinha manteiga como hoje; usava banha, óleo ou gordura de coco. Entrevistador(a): O coco e a bananeira eram cultivados aqui no quintal? Participantes: Bananeira tinha no quintal quintal. Coco, não. Os coqueiros ficavam em terrenos maiores, de pessoas que tinham mais terra. A gente ia catar coco nos terrenos dos outros. Naná: A gente trazia o coco, descascava pra depois socar e tirar a massa. A massa ia ao fogo para tirar a gordura. A massa servia para fazer sabão. A gema do coco fazia o óleo. A casca nunca usamos, só pra queimar. A gente aproveitava tudo. Entrevistador(a): Quem ensinou a senhora a fazer cubu? Naná: Minha mãe fazia. Ela não ensinava, a gente olhava e aprendia fazendo. Era assim também com rosca, biscoito e brevidade, ela nunca ensinou, a gente vinha ajudar e prestava atenção. Quem queria aprender tinha que chegar e ajudar. 6. Dona Bela, os doces, a pensão e as criações [43:41–48:55] Participante: Minha mãe fazia muitos doces de frutas. Nessa época, os doces eram guardados em latas, depois passaram a ser colocados na geladeira. Fazia doce de limão, laranja, cidra e até do tronco do mamoeiro. Entrevistador(a): Esse doce do mamoeiro era como uma compota? Participante: Não. O tronco era ralado e o doce ficava parecido com doce de coco, com pequenos cristais, parecido com cocada. Participante: Tia Bela fazia quitandas e doces para vender. Vendia nas festas, em barracas, e também na mineração. Antes não tinha armário e guardava tudo no guarda-roupas, ficava trancado. As meninas iam buscar lenha com fome, porque ela fazia pra vender. Participante: E também pra ajudar o marido, era uma fonte de renda. Participante: Aqui também funcionava como pensão. Pessoas de fora vinham para comer e algumas ficavam hospedadas, e a gente tinha que ajudar. Se tinham dinheiro, pagavam. Se não tinham, ficavam também e ajudavam nos trabalhos: buscavam lenha, lavavam roupa e faziam outros serviços. Tinha cama e comida para todos. Participante: Se tivesse dinheiro bem, se não também era acolhido. Participante: Dona Bela era lembrada como uma pessoa muito caridosa aqui em Piedade. Havia até um homem chamado Antônio, que era mudo e aparecia aqui meia-noite para comer. Se ela tinha feito macarrão, ele não queria. Tinha que preparar arroz com ovo ou outra comida pra ele. Participante: Ela passava a madrugada trabalhando. Às vezes, quando era uma hora da manhã, começava a fazer biscoito para a família comer. Quando os outros saíam cedo para a escola, ela ainda estava acordada ou preparando café. Ele levantava era 10/11 horas. Participante: Tinha uma mulher que trabalhava aqui e ela tinha matado porco ai ela (Dona Bela) tinha temperado o lombo a noite, e a mulher chegou e mamãe tava dormindo e ela perguntou o que era pra fazer com a carne e mamãe mandou jogar fora. Quando nós chegamos, mamae levantou e procurou a carne e nada e chamou ela e perguntou cadê a carne. Ela disse que tinha mandado jogar fora. A carne tava só temperada… Entrevistador: E os bichos que tinha criação aqui? Participante: Tinha criação de porcos e galinhas. Tinha mais porcos do que galinhas. Os porcos ficavam muito gordos, tinha que matar de tão gordo e virava festa para a família. Participante: Vamos levar o cubu para assar gente? 7. O forno a lenha e o encerramento [48:55–50:20] Naná: Agora vamos levar o cubu para assar. O forno já está quente. Entrevistador(a): No forno a lenha, ele fica quanto tempo, mais ou menos? Naná: fica uns 40 minutos. Entrevistador(a): a senhora acha que tem diferença entre assar no forno a lenha e no forno elétrico? Participantes: Tem. No forno a lenha fica melhor, assa mais rápido, parece que fica mais gostoso e ganha uma leve defumada. Naná: Muito obrigada a quem está nos ouvindo. Nós estamos aqui no Quilombo. Venham participar conosco e nos visitar; será um prazer. Qualquer coisa de que precisarem, podem procurar aqui no Quilombo, que a Naná está aqui. Encerramento: Agradecemos a escuta e por caminhar conosco nesta experiência. Até o próximo episódio.

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