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Você sabe o que é Psicologia Ambiental?



O Rede Soa Sirene conversou com a psicóloga ambiental Hélcia Veriato para saber mais sobre esse tema e entender como ele pode ajudar a enfrentar o problema das barragens de mineração em Minas Gerais.


Hélcia, afinal, o que é a psicologia ambiental?


A Psicologia Ambiental estuda a pessoa em seu contexto, tendo como tema central as inter-relações da pessoa e o meio ambiente físico e social. Portanto, atuamos na busca da compreensão de uma influência recíproca que existe entre a pessoa e o seu ambiente. Essa inter-relação é dinâmica, tanto nos ambientes naturais quanto nos construídos, porque os indivíduos agem sobre o ambiente e esse se modifica e influencia o comportamento humano. Então, não abordamos nem o indivíduo isoladamente, nem o ambiente. Nosso discurso como Psicólogos Ambientais é sempre na dimensão da inter-relação do homem com o seu contexto ambiental. Mesmo assim, sempre colocamos a pessoa como centro de nossa preocupação.


Mas o que vocês analisam?


A especificidade da Psicologia Ambiental é a de analisar como o indivíduo avalia e percebe o ambiente e, ao mesmo tempo, como ele está sendo influenciado por esse mesmo ambiente. É nesse sentido que estamos interessados em saber como o indivíduo percebe e reage às condições adversas do ambiente, e essa influência depende de como ele percebeu os diferentes aspectos estressantes decorrentes do fato adverso exposto no lugar onde ele vive.


E o que você já percebeu nos territórios onde há exploração de minério?


Morar nesses territórios requer resiliência frente ao medo do rompimento, o que pode causar estresse. Esse estresse é, certamente, uma palavra central, porque é o resultado da interação entre esse indivíduo e o seu contexto físico. Não é o contexto físico isoladamente que causará o estresse. Não é a barragem diretamente que vai adoecer o morador. O que pode provocar o estresse é a relação que a pessoa tem com esse território que tem a barragem. Então, é isso que nos interessa em Psicologia Ambiental e é isto que faz com que ela seja cada vez mais importante para resolver problemas, humano ambiental, e principalmente em Minas Gerais.


Quais outros aspectos dos estudos da psicologia ambiental podem ajudar na compreensão da relação dos moradores com os territórios explorados?


O espaço e a dimensão temporal são conceitos específicos e muito importantes na Psicologia Ambiental. Ao entendermos as projeções no futuro e as referências ao passado, como inerentes ao ciclo de vida de uma pessoa, com características bem peculiares, entendemos também que tantas outras coisas existem com ciclos de vida diferentes. Uma árvore pode se desenvolver muito rapidamente, ou muito lentamente, mas ela cresce em um ritmo diferente do ser humano e pode fazer parte da memória afetiva do lugar que habita a pessoa e tem um significado singular para ela.


Um exemplo que me foi relatado pelos moradores de Bento Rodrigues era a memória doce de terem namorado no banco de pedra, ao pé da árvore, ao lado da igreja. Tudo a lama levou, e depois a pedra do banco foi procurada e encontrada pelos próprios moradores. Assim, em Psicologia Ambiental a noção de história em geral é importante. Não se deve esquecer que é através de sua história com o espaço que o indivíduo constrói uma identidade com o lugar. E o que diferencia o espaço do lugar é que esse último é dotado de afetividade.


E o que especificamente esse entendimento pode ajudar na vida das pessoas que vivem em territórios explorados?


O recorte de tempo na Psicologia ambiental é muito importante para o enfrentamento do problema da adoção de comportamentos pró-ambientais. Ou seja, fazer com que o indivíduo respeite o meio-ambiente e que adote comportamentos que sejam ambientalmente corretos. Por exemplo, de racionamento do uso de água no período de seca, fazer a coleta seletiva em casa, entre outros. Nessas problemáticas o tempo é muito importante, porque muitas vezes nesses problemas o indivíduo tenta atuar de maneira individualista e não pensa na comunidade. Ademais, os problemas que podem surgir quando o indivíduo não atua de modo a preservar o ambiente trazem consequências não para a geração atual, mas para a geração futura.


A psicologia ambiental então está ligada à outras áreas de estudo?


A Psicologia Ambiental é muitas vezes pluridisciplinar, ou multidisciplinar, no sentido de que a complexidade dos problemas ambientais costuma exigir uma abordagem a partir de diferentes pontos de vista, necessitando da colaboração de outras áreas como da Geografia, Sociologia, Urbanismo, Arquitetura, Engenharia, Direito e Biologia. E com essas interfaces com outras áreas é que o psicólogo ambiental pode contribuir com processos de desenvolvimentos sustentáveis, e em particular na minha experiência com processos de licenciamento ambiental de grande empreendimentos públicos e privados, entre eles o de mineração.


Para você qual é o papel da mineração?


A mineração é uma das mais antigas atividades produtivas exercidas pela humanidade. Ela é responsável pela base da economia de muitos povos, mas ela provoca grandes impactos socioambientais. Seus efeitos são de longo alcance, partindo do local até mercados internacionais. Por esse aspecto, ela provoca um imenso debate com relação aos processos de desenvolvimento sustentável. Mas para que a mineração possa gerar possibilidades de desenvolvimento sustentável há grandes desafios a superar. A economia de base minerária carrega com ela a “maldição dos recursos” ou seja: a abundância de recursos naturais pode ser apontado como um sabotador do desenvolvimento da região onde essa riqueza se encontra. A robustez da exploração de minério, então, ofusca o desempenho de outras atividades. Os indicadores de economia revelam que há má distribuição de renda, pouca diversificação econômica, o que, entre outros aspectos, gera um capital de trabalho onde uma única companhia é responsável direta e indiretamente pela força de trabalho. E o ponto alto da maldição da mineração em um país em desenvolvimento reside na tributação, que exige competência e qualificação dos governantes para administrar. Mas como se sabe o uso prudente desta fonte de renda é caracterizado mais por uma exceção do que pela regra. Diante disso, a maldição da mineração é um importante alerta para a busca da compreensão de soluções. Pesquisas já estão sendo desenvolvidas pelo Banco Mundial e há uma opinião majoritária emergente que aponta para as falhas institucionais e de políticas inadequadas. Com base nesses referenciais teóricos é que busco compreender a percepção das comunidades atingidas pelo o rompimento da Barragem da Vale na Mina de Córrego do Feijão, e que busco atuar junto aos movimentos sociais e comunidade na perspectiva de trazer contribuições para a ressignificação desse modelo de desenvolvimento de base minerária.


Qual a sua conclusão sobre o contexto de barragens em Minas Gerais?


Estamos em um Estado que carrega cunhado no seu nome as marcas de um modelo maldito. A literatura aponta que onde há mineração há pobreza e corrupção. Portanto é desafiador que se crie mais largamente uma prática de pesquisa e extensão em Psicologia Ambiental. No Estado de Minas Gerais não há nenhum laboratório de pesquisa de Psicologia Ambiental nas Universidades até essa data, por não haver luz sobre esse caminho de possibilidades que esse campo da Ciência e profissão pode dar a esse Estado com mais de 700 barragens. Desse modo, utilizo as palavras do promotor de justiça do meio ambiente do Ministério Público de Minas Gerais, Carlos Eduardo Ferreira Pinto, em sua participação no Seminário “Paisagens que transformam”, realizado em maio de 2016, no Instituto Izabela Hendrix, e promovido pelo Corpo de Bombeiros, onde ele apontou as questões sobre as ilegalidades dos processos licitatórios de concessões de construções de barragens no Estado e afirmou que não basta melhorar a resposta frente ao desastre: “é preciso enfrentar o sistema de controle e fiscalização. O Brasil precisa modificar o ordenamento jurídico para lidar com mecanismos de tutela da sociedade e evitar desastres provocados pela ação humana. As barragens de mineração elas não são estáveis, elas ficam estáveis.”

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